quinta-feira, 19 de agosto de 2010

LÁGRIMAS NO JÚRI

Sabe-se que, em defesa do acusado perante o Tribunal do Júri é lícito ao advogado a plenitude de defesa. Nisso reside a possibilidade de se utilizar meios tanto jurídicos quanto extrajurídicos para enfrentar a tese de acusação. Há muitos defensores que se valem de todo tipo de conhecimento, dentre os quais, aqueles voltados à sociologia, filosofia, teologia etc. Tudo é válido para cumprir o grande legado do advogado, o de convencer os jurados.

Diante disso, surge a pergunta: chorar ajuda ou atrapalha? Bem, pode parecer um pouco ampla a pergunta, porque logo a resposta poderia ser: depende! Em outras palavras, depende da situação, do momento. Contudo, é importante destacar alguns aspectos em relação a esse ato e suas implicações no resultado do discurso.

O que é o choro? É um efeito fisiológico do ser humano, que ocorre geralmente quando se está num estado emocional alterado, em casos de medo, tristeza, depressão, dor, saudade, alegria exagerada, raiva, aflição etc. Esse fenômeno relaciona-se ao instinto de defesa do ser humano. Além disso, o ser humano tem a capacidade de motivar o choro como pretexto para conquistar um objetivo. Por isso, as crianças choram para chamar a atenção dos pais; um adulto, para provocar uma relação de empatia, de solidariedade; os artistas choram para simular uma cena.

O advogado, geralmente é visto pelos jurados como aquele indivíduo convicto do que diz e, sem titubear lança seus argumentos numa posição de firmeza, demonstrando plena segurança. Assim deve ser! Pois, não se convence sem estar convencido. A maneira como dizemos é muito mais importante do que o que de fato dizemos.

Assim, quando o orador se expressa diante dos jurados, na realidade ele está vivendo aquele discurso, como se transladasse sua mente para o dia dos fatos, fazendo com que todos embarquem juntos e viajem em suas palavras. Diante disso, existem pontos culminantes e que, naturalmente tendem a despertar emoções mais intensas. Nessa hora, é possível que lacrimejem os olhos do causídico, aquele que carrega sobre si as dores do homem a quem defende, e molhem a cara que dera para bater, em lugar daquele que, não raro, já se assentou ao banco dos réus condenado pela opinião pública.

Por outro lado, deve o defensor se conter. Não é bom que carregue o título de chorão. Conheço uma defensora que em todas as sessões do júri se emociona e chora. Isso, por mais sincero que possa ser, tende a soar com falsidade. Esse infortúnio pode confundir os sentimentos dos jurados e fulminar a tese de defesa.

Portanto, não é desaconselhável chorar diante dos jurados. Mas isso deve vir naturalmente, com discrição, desde que possa contribuir para o conjunto de elementos que visa convencer os jurados.

Mauricio Belo Ferreira.